A expressão remonta ao célebre cavalo de Troia, episódio da guerra, ao mesmo tempo histórica e lendária, travada entre gregos e troianos por volta de 1200 a. C. A imagem atravessou mais de três milênios porque certos acontecimentos deixam marcas que sobrevivem às gerações e moldam a memória coletiva dos povos. O mesmo ocorre com a Guerra do Paraguai. Recentes declarações do Presidente da República reacenderam, naquele país, lembranças de um conflito que permanece profundamente gravado em sua identidade nacional.
Entre 1864 e 1870, a Guerra da Tríplice Aliança provocou uma devastação sem precedentes. Muitos historiadores estimam que cerca de 70% da população masculina paraguaia tenha perecido, desde adolescentes até homens em idade madura. Não por acaso, até hoje há quem qualifique aquele desfecho como um verdadeiro genocídio. Uma narrativa pouco conhecida no Brasil, conhecida como Tobler-Lopacher, descreve a peregrinação de um soldado suíço que permaneceu no Paraguai após o conflito.
Ao atravessar o interior do país e a província argentina de Misiones, registra o encontro frequente com pequenos agrupamentos formados por mulheres de diferentes gerações e crianças muito jovens em torno de um ancião, consequência da quase completa ausência de homens adultos jovens – e de um novo padrão de família decorrente da guerra. Independentemente da precisão de todos os detalhes desse relato, ele traduz o ambiente humano produzido por uma guerra de enorme violência. Não se trata de um passado remoto. Tenho 82 anos. Meus avós nasceram durante os anos daquele conflito.
Isso significa que os relatos atravessaram gerações e permanecem vivos na memória familiar e nacional. Quando se trata de temas dessa natureza, palavras pronunciadas por autoridades exigem especial cautela. É importante lembrar que as relações entre Brasil e Paraguai nem sempre foram marcadas pela hostilidade. Antes da guerra, durante o governo de Carlos Antonio López, houve intensa cooperação entre os dois países.
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