Dentro de campo prevalece o respeito entre profissionais, mas, nas arquibancadas, permanece viva a paixão pelas cores nacionais Nelson Rodrigues, nosso maior dramaturgo, era também um apaixonado por futebol. Irmão de Mário Filho, jornalista que deu nome ao Maracanã, escrevia uma célebre coluna em O Globo. Com humor refinado e frequente sarcasmo, comentava os jogos, exaltando seu Fluminense, mas sem deixar de reconhecer os méritos dos adversários. Foi dele a expressão que atravessou gerações: a seleção brasileira é a “pátria de chuteiras”.
O culto à Seleção Brasileira começou a ser construído desde as primeiras Copas do Mundo e ganhou enorme intensidade após a dramática derrota para o Uruguai na final de 1950, diante de um Maracanã lotado. A conquista do primeiro título mundial, em 1958, revelou ao mundo craques como Pelé, Garrincha, Djalma Santos, Nilton Santos e tantos outros. A vitória foi celebrada em músicas, desfiles e manifestações populares que consolidaram uma forte identificação entre a seleção e o sentimento nacional. Não demorou para que governos percebessem a força simbólica desse patrimônio coletivo.
Ao longo das décadas, diferentes dirigentes buscaram associar sua imagem aos sucessos da seleção, tentando transformar vitórias esportivas em dividendos políticos. Os jogadores, porém, nem sempre aceitaram essa aproximação. Um episódio emblemático ocorreu antes da Copa de 1970. João Saldanha, então treinador da seleção, foi questionado sobre uma suposta sugestão do presidente Emílio Garrastazu Médici para convocar determinado atleta.
Sua resposta tornou-se histórica: “O presidente escala o ministério dele; eu escalo a seleção brasileira.” Pouco depois, Saldanha deixou o comando da equipe, substituído por Zagallo, que conduziu o Brasil à inesquecível conquista do tricampeonato no México. O retorno dos campeões foi transformado em uma grande celebração nacional, com desfiles e homenagens. A ditadura militar aproveitou o momento para reforçar a propaganda oficial de um país supostamente unido e próspero, sintetizada no slogan “Brasil, ame-o ou deixe-o”.
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