Economia

A Verdade Editada

Há décadas, Washington Olivetto criou para a Folha de S.Paulo uma propaganda que continua sendo…

Por EDS NEWS • 09/07/2026 06:32 (horário de MT)

Como a mentira deixou de fabricar fatos e passou a editar a realidade. Há décadas, Washington Olivetto criou para a Folha de S. Paulo uma propaganda que continua sendo uma das mais brilhantes lições sobre comunicação já produzidas. Durante quase um minuto, o narrador descreve um líder político. Diz que recuperou a economia de seu país, reduziu o desemprego, fortaleceu a indústria, investiu em infraestrutura, despertou o orgulho nacional e conquistou o apoio entusiasmado de milhões de pessoas. Cada informação apresentada é verdadeira. Nada foi inventado.

Ao final, porém, surge a revelação: o personagem descrito era Adolf Hitler. O impacto daquele comercial não nasce de uma mentira. Nasce da ordem dos fatos. A narrativa não inventa a realidade; ela determina como a percebemos. Os fatos eram verdadeiros, mas foram cuidadosamente organizados para conduzir o espectador a uma conclusão que se desfaz no instante em que uma informação essencial é finalmente apresentada. A experiência revela uma característica frequentemente esquecida: os fatos, sozinhos, não contam uma história. Eles precisam ser escolhidos, organizados, relacionados e contextualizados.

É nesse processo que nasce a narrativa. Na verdade, um fato isolado quase nunca possui significado próprio. Seu sentido depende das relações que estabelece com outros fatos. Uma fotografia registra um instante; uma sequência de fotografias conta uma história. Uma estatística descreve um aspecto da realidade; comparada com outras, começa a revelar tendências, causas e consequências. O significado não reside apenas nos fatos, mas na maneira como eles são conectados. É justamente nesse espaço — entre os fatos e a interpretação que construímos deles — que as narrativas adquirem seu poder.

Vivemos numa época obcecada em distinguir verdade e mentira. Multiplicam-se as iniciativas de verificação de fatos, os mecanismos de combate à desinformação e as discussões sobre fake news. Tudo isso é importante. Mas talvez o maior desafio do nosso tempo seja outro. Uma notícia falsa possui uma fragilidade: cedo ou tarde pode ser confrontada com a realidade. Um documento pode revelar a fraude, uma fotografia pode ser desmascarada, um fato inexistente pode ser refutado. Já uma narrativa construída exclusivamente com fatos verdadeiros é muito mais resistente.