Onde as mulheres estão seguras?

Na rua? No trabalho? Nos hospitais? No presídio? Nicolly tinha 22 anos e um filho de 4. Teve a coragem de terminar um relacionamento que a machucava, mesmo com o ex-companheiro preso. Foi visitá-lo numa visita íntima, supervisionada, dentro de um prédio cheio de agentes penitenciários. Ainda assim, ninguém percebeu nada: o crime só foi notado na contagem de visitantes, ao final do horário. Ela morreu de traumatismo craniano.
Se isso aconteceu dentro de uma cadeia, vigiada, com câmeras e agentes por todo lado, resta imaginar o que acontece em silêncio, todos os dias, dentro de casas onde não há ninguém olhando. A pergunta nasceu de uma manhã como tantas outras: ligar a TV, abrir o jornal, e se deparar com três notícias na mesma pauta: dois feminicídios e um estupro cometido dentro de uma delegacia. Um dos casos vitimou uma mulher que trabalhava como guarda municipal. O outro teve como autor um agente penitenciário. Homens investidos de farda, de autoridade, supostamente guardiões da lei, foram o risco, não a proteção.
E os números mais recentes mostram que esse não é um susto isolado, é um padrão que está se acentuando. O dado que devia estar em toda primeira página O Atlas da Violência 2026, divulgado pelo Ipea e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, trouxe uma informação que passou quase despercebida, mas que resume o problema com uma precisão brutal: entre 2014 e 2024, a taxa de homicídios de mulheres cometidos fora do ambiente doméstico caiu de 3,47 para 2,17 por 100 mil. A violência “de rua” contra mulheres recuou.
Só que, no mesmo período, o índice de mulheres assassinadas dentro de casa se manteve praticamente estável, variando de 1,25 para 1,18 por grupo de 100 mil, uma queda tão pequena que os próprios pesquisadores tratam como estagnação. Enquanto a violência de fora diminuía, a de dentro de casa não se moveu. O resultado é matemático e devastador: o feminicídio, que já foi uma fração do problema, passou a puxar a taxa de mortes femininas no Brasil.