Memórias de uma filha de garimpeiro

No dia 21 de julho, o Brasil celebra o Dia Nacional do Garimpeiro. Para muitos, apenas uma data no calendário. Para mim, é um convite para relembrar minha história e refletir sobre a atividade que fez parte da minha vida desde a infância e que, até hoje, desperta debates, opiniões divergentes e, muitas vezes, julgamentos precipitados. A mineração roubou um pouco do convívio com meu pai durante a infância. Morávamos em Várzea Grande, enquanto ele trabalhava no Pará.
Se hoje a distância já é difícil, imagine há mais de trinta anos, quando as viagens eram longas, a comunicação era limitada e a saudade fazia parte da rotina. Muitas datas especiais passaram sem a presença dele. Aniversários, comemorações e momentos simples do dia a dia precisavam esperar. E, quando finalmente voltava para casa, muitas vezes retornava doente, depois de enfrentar diversas malárias e tantas outras dificuldades que fazem parte da realidade de quem vive no garimpo. Foi assim que aprendi, ainda criança, que a vida do garimpeiro nunca foi fácil. É uma vida de renúncias, riscos, esforço e muita coragem.
Mas existe algo que sempre me chamou a atenção: a Fé. A Fé do garimpeiro é diferente. É uma Fé que acorda cedo todos os dias acreditando que vale a pena continuar. Sempre enxerguei nos olhos do meu pai uma esperança difícil de explicar. Não era apenas o desejo de encontrar ouro. Era a vontade de construir um futuro melhor, gerar oportunidades, criar empregos e transformar a vida de outras pessoas. O garimpeiro enxerga possibilidades onde muitos só veem dificuldades. Vê riqueza onde outros enxergam apenas terra. Vê beleza onde muitos não conseguem perceber valor.
Talvez seja justamente essa capacidade de acreditar antes de ver que move tantos homens e mulheres da mineração. Cresci entendendo que o ouro nunca foi o maior tesouro da nossa casa. O verdadeiro tesouro sempre foi o exemplo de um homem que saía para trabalhar carregando coragem e voltava trazendo dignidade, esperança e a certeza de que desistir nunca seria uma opção. Hoje tenho o privilégio de acompanhar de perto essa trajetória e sinto um orgulho enorme ao olhar para tudo o que meu pai construiu. Aos poucos, ele conseguiu mudar sua própria história.